sábado, 6 de fevereiro de 2016

(Sortilege) - Repostagem


Ontem depois que te enviei aquele email bem à tardinha, fui assistir algo e dormi um sono comprido... num esvair de letargia eterna articulando esquecimento e, submergindo assim inesperadamente para o nada, sonhei você e eu imersas em uma banheira de lousa murano em forma de concha escavada no chão. 
Ela era quase opalescente e até a borda cheia de água sulfurosa, tépida. Espuma, aromas exóticos... Eu podia sentir e identificar todas estas impressões de maneira descomunal neste cenário de desdobramento de percepção. Sons, cores, luz de velas coloridas de cera de abelha perfumadas refletindo e cambiando matiz bruxuleante por todo o ambiente.
O vapor fluindo em círculos concêntricos, o padrão do piso, das paredes e pavimentos em peças de majólica coloridas e congruentes, ajustadas umas às outras, de forma contínua a formarem mosaicos de selos (Dios... selos como aqueles das cartas medievais em que o remetente o fazia em lacre diamond e o assinava com o brasão de seu anel) em tons vermelho jaspe entremeando anagramas em azul turquesa e que, em seus caracteres e simbolismo, narravam sobre nós. 
Podia ouvir o rumor buliçoso da água despedaçada pelo movimento dos nossos corpos nus coesos ali agarrados, tangidos pelo encanto da força de atração.  Calor, sede, desejo queimando, consumindo sem extinguir numa dor avassaladora de prazer que chega - que já está e que não pode partir sem deixar marca. 

Você me pegando, possuindo todos os espaços físicos e qualquer orifício de persona e eu ali, te pertencendo tanto...  Até que você segurando-me sempre, sentou-me encaixada a cabeceira madrepérola desta cavidade côncava e se aprumou sobre minha face como uma deidade fêmea com teu sexo escorrendo em meus lábios... Eu te senti, como se fosse tu a minha essência, meu âmago e totalidade a entornar-me pela boca, pela alma. Eu te bebia te comendo, comungando-me em vínculo de profundeza insondável contigo.
Neste instante e deste modo em que estávamos as duas em nós definidas - quando meus olhos por fração de segundos desviaram do cravar esmeraldino dos teus fitos nos meus, percebi admirada que não existia ‘teto’ neste espaço em que estávamos...e sim, aberta para a noite obsidiana, uma  imensa abóbada cravejada de estrelas, planetas a girarem poliedros em sequência nautillus e, ao centro espiralado, uma Stela  platinada de todas as fases lunares a nos fazer vigília como imensas sentinelas brancas. Todas elas, ali perfiladas em elemento e ao mesmo tempo existindo e perpetrando em uníssono a eficácia de seus domínios manifestos.

E, foi assim que abri os olhos no máximum do limite imponderável das sensações e vertigem, amada minha  - Nem viva e nem muerta, nem desperta e nem dormindo... Nem inteira e nem pela metade - apenas ‘repleta de ti numa lucidez incomensurável jamais concebida, jamais imaginada’ e tendo a certeza que depois deste exótico episódio onírico, deixei de SER o que quer que seja que eu cria ser.

Ah... Como são confinatórios e transtornantes estes arroubos de sentimentalidade ao me fazerem sentir como se eu fora um ‘eco’ de nós duas enfeitiçado e preso a um vórtice de espaço tempo que desconhece o próprio Tempo!  - Acho que devo me tratar, pois não há consolo e lenitivo para profundidade de lacunas tão desmesuradamente avassaladoras -  SOS terapia intensiva, injeção na testa, coquetel Molotov de barbitúricos, eletro-choque, sossega leão, camisa de força e ‘suíte’ de 2mx2m acolchoada, pois, não aguento sozinha processos tão agudos e bizarros de cognição... Pensando bem, nem Neruda no auge de sua tórrida e delirante paixão por Matilde Urrutia aguentaria, obsessão de amor tão desconcertante!

2 comentários:

Bi Castro disse...

Perdi o rumo de tão lindo e profundo !

Loba Azul disse...

Oi, Bi... Grata pela visita, pela avaliação e pelo carinho, minha amiga!

Beijo